Album: Hopeless Fountain Kingdom
Artista: Halsey
Lançamento: 2 de junho, 2017
Gênero: Synth-pop
Duração: 38:32
Gravadora: Astralwerks

Com uma excelente campanha de divulgação, Hopeless Fountain Kingdom falha em ser o romance proibido de Romeu e Julieta e se mostra na verdade um álbum sobre uma mulher tentando sair de uma relacionamento totalmente tóxico e abusivo.

Desde o início do anúncio do álbum, Halsey disse abertamente que o álbum seria inspirado na história Shakespeariana de Romeu e Julieta, especialmente a versão adaptada para o cinema por Baz Luhrmann (1996) com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. O diretor do longa foi convidado por Halsey para assessorar na história adaptada por ela para o álbum e até dirigiu a fotografia do clipe do single “Now Or Never”.

Na história que criou para o álbum, Halsey optou por mudar os gêneros dos personagens e chamá-los de Luna (Romeu) e Solis (Julieta), latim para Lua e Sol. Além disso, as famílias antes Montéquios e Capuletos, agora se chamam Angelus (Solis) e Aureum (Luna), e têm uma rixa de gangues que dura gerações na cidade Kingdom.

Apesar de toda a ideia do clipe e arte promocionais serem focadas nesse história criada, nas músicas do álbum vemos pouco dessa história. A principal referência a Romeu e Julieta inicia o álbum na primeira faixa, intitulada Prologue na qual Halsey narra o Prólogo que incia a peça de teatro escrita por Shakespeare. Após a leitura do prólogo, Halsey declara que “Hands so bloody, tastes like honey. I’m finding it hard to leave” (Mãos tão sangrentas, com gosto de mel. Estou achando difícil de ir embora), já anunciando sobre o que na realidade será o álbum: a dificuldade de sair de um relacionamento tóxico/abusivo.

Na música subsequente, 100 Letters, Halsey/Luna inicia sua jornada para fora de um relacionamento abusivo. O verso: “He said one day I’d realize why I don’t have any friends. I find myself alone at night unless I’m having sex. But he can make me golden if I just showed some respect.” (Ele disse que um dia eu perceberia porquê não tenho amigos. Me encontro sozinha à noite a menos que esteja fazendo sexo. Mas ele pode me tornar ouro se eu mostrar algum respeito). Mostra o quanto o protagonista masculino é abusivo e parece querer mudá-la e promete torná-la “ouro”, se ela fizer o que ele quer. Nessa música, a protagonista vai embora e diz que é tarde demais para isso.

Na música seguinte Eyes Closed, Luna está saindo com vários caras tentando esquecer Solis, mas com os olhos fechados todos são iguais a ele e parece esquecer tudo o que deu errado no relacionamento deles. Uma curiosidade é que Halsey disse em uma entrevista que The Weeknd deu a primeira ideia para a música. Em Heaven In Hiding, música especial da versão deluxe do álbum, Luna acredita que pode estar no controle do relacionamento com Solis, que ela também “can put up one good fight” (pode aguentar uma boa luta) e que ele não irá resistir a ela.

Em Alone, Luna recomeça a se distanciar de Solis, retoma sua independência viajando o mundo e entrando em confusões e festas. Todos estão morrendo para conhecê-la, mas ela acha que as pessoas irão se decepcionar ao conhecê-la. “Now or Never” é o hino que a gente espera da Halsey, é tocante, poderoso e modesto. Uma música sobre alguém que só quer que o relacionamento dê certo de uma vez.

“I don”t wanna fight right now. I know you’re always right.” (Não quero brigar agora. Sei que você está sempre certo.) Fora do contexto do álbum, esse trecho não significa muita coisa, mas quando você vê a história do relacionamento narrado nas músicas, para mim, parece um mais um sintoma de relacionamento abusivo, na qual o parceiro sempre tem que ter razão das discussões e a outra pessoa alienada acaba sempre cedendo às vontades do outro apenas para não brigar mais.

Na próxima música, “Sorry” Luna admite ter dificuldades em relacionamentos, sempre fugindo quando as coisas estão bem, e pede desculpas por não “conseguir acreditar que alguém possa realmente se apaixonar por ela”. Isso pode ser mais um sintoma dos relacionamento dela com Solis, em relacionamentos abusivos sempre tem altos e baixos, momentos de “paraíso”, onde tudo está maravilhoso e momentos de “inferno” com brigas e muitas vezes violências, seja física ou psicológica. Como um instinto de preservação, ela pode acabar fugindo de relacionamentos ainda na fase do “paraíso” prevendo uma “fase ruim “do relacionamento.

Em “Good Morning”, Halsey já explicou em seu twitter que o Sol na música é o Solis e que Luna é a Lua que sempre muda e que ninguém acha confiável, mas como a música diz “nothing here is as it seems” (nada é o que parece), Luna muda por causa de Solis que está vindo, e é uma pena porque ela mudará de novo por ele.

“Lie”, música com participação do rapper Quavo, tudo está desandando de vez. Luna está sendo engolida por um relacionamento completamento abusivo, e ainda fala que está tentando mostrar que entendeu que ele gostaria que ela estivesse morta. Mesmo assim diz que se ele não a ama mais, então deve mentir. Quavo canta a parte de Solis com várias insinuações de que o sexo é ótimo e que são apenas os “planos” que eles precisam arranjar, então ele não precisa mentir. Parece que Solis resume o relacionamento a sexo e ignora todo o resto que vai mal.

Na música, “Walls Could Talk” Halsey conta como é realmente o relacionamento deles entre duas paredes, as brigas físicas na limousine, das quais ninguém sabe, e como apesar de tudo isso, eles continuam esperando que há algo, que dê certo, mas se as paredes falassem ficariam chocadas com o que acontece entre eles. “Told my new roomate not to let you in, But you’re so damn good with a bobby pin” (Disse para a minha nova colega de quarto para não deixar você entrar, mas você é muito bom com um grampo de cabelo). Claramente, é ele arrombando a porta da casa dela, como um bom stalker.

Em “Bad At Love”, Luna canta sobre toda sua história com relacionamentos, sobre como ela sempre acaba com caras que querem controlá-la e mudá-la, e culpa a si mesma por sempre cometer os mesmos erros.  “Don’t Play” é uma hino sobre se libertar, não ligar para o que os outros dizem, seguir em frente e ter um tempo para si mesma. Depois dessa libertação, “Strangers” conta sobre o caso de Luna com uma mulher, com a qual ela tinha a esperança de ter um relacionamento, apenas para ter as expectativas destruídas.

“Angel on Fire” é sobre perceber que você não é mais quem costumava ser e que sua essência mudou, enquanto as outras pessoas estão se apaixonando e rindo, ela está triste e ansiosa, ficando difícil conversar com as outras pessoas. Em “Devil In Me”, Luna percebe que tem que acordar quem ela costumava ser e voltar à vida. Depois de tanto tempo abafando seus sentimentos e pensamentos, dá um certo receio de voltar a ter vida, depois de voltar tão alto próximo ao Sol (Solis), mas ela tem que acordar.

“Hopeless” é um estado de espírito, é um sentimento que ela espere que mude com o tempo. Ela às vezes ainda volta a pensar que ainda o ama, que deve haver algo real entre eles, é fácil perdoar olhando os olhos dele, mas não tem esperança de que dê certo algum dia. Mesmo assim, ela espera que mude com o tempo.

Com um álbum tão focando em relacionamentos abusivos, Halsey já respondeu no twitter à críticas sobre a possibilidade do álbum estar romantizando esse tipo de relação disfuncional. Disse que falar sobre o que aconteceu não é romantizar, e que o álbum é do início ao fim sobre sair de um relacionamento abusivo e achar amor dentro de si mesma ❤

Eu particularmente não gostei do refrão de 100 Letters e Walls Could Talk. O primeiro parece muito chiclete e algo que a Taylor Swift cantaria, e o segundo algo que a Britney Spears cantaria nos anos 90.

Ao todo, o álbum não entrega nada relacionado ao épico Romeu e Julieta, me parece mais um álbum biográfico do relacionamento que Halsey passou e colocou tudo em música e sentimento. É difícil fazer um álbum conceitual no pop hoje em dia e o conceito do álbum acabou distante das letras das músicas. Eu adoro o modo como a Halsey escreve e, sim, ela sempre admite que amplifica os sentimentos e os transforma em proporções épicas, me identifico com a escrita pessoal e autobiográfica dela.

O toque de hip-hop que tem em algumas músicas do álbum funcionou bem algumas vezes. Confesso que tenho dificuldade de levá-la a sério fazendo rap em Lie, mas gostei muito dela em Don’t Play, por exemplo. Existem também músicas muito ambiciosas e diferentonas, como Good Morning, que você simplesmente não esperava encontrar em um álbum pop. O álbum continua com uma identidade única da Halsey, mas pode decepcionar pelo conceito aparecer bem de longe nas músicas.

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Um comentário em “Hopeless Fountain Kingdom – Halsey

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